O Dia em Que Uma Picanha Causou o Caos

28/08/2025 às 15:14:39

Você já viveu um daqueles momentos em que o mundo parece desmoronar por causa de… uma foto de carne? Pois bem, deixe-me contar sobre o dia em que uma simples picanha transformou nossa equipe de comunicação numa versão política dos Bombeiros de Chicago.

Era 2021, aqueles tempos sombrios da pandemia quando todos estávamos navegando entre home office, máscaras e a arte de fingir que sabíamos o que estávamos fazendo. Eu cuidava das redes sociais de um deputado federal que, diga-se de passagem, tinha uma relação… digamos, "criativa" com a consultoria prévia antes de postar.

O cara era daqueles políticos que acreditava firmemente na espontaneidade das redes sociais. Sabe aquele seu tio que posta foto do almoço sem pensar duas vezes? Então, imaginem isso, mas com mandato e milhares de seguidores.

O Momento Fatídico

Foi numa tarde aparentemente tranquila que o caos se instalou. Eu estava lá, provavelmente tomando meu décimo café do dia e revisando o cronograma de posts, quando de repente: BLAU! Notificação do Instagram. Nosso querido deputado havia postado uma foto de uma picanha tão suculenta que faria qualquer churrasqueiro chorar de emoção.

Minha primeira reação? "Nossa, que carne bonita!" A segunda? Um frio na barriga que nem o ar-condicionado do escritório justificava.

Nós Temos um Problema

Vamos fazer um exercício rápido de contexto histórico: 2021, pandemia, economia derretendo mais rápido que manteiga no sol, carne custando o preço de um rim no mercado negro, e pessoas literalmente fazendo fila em banco de alimentos.

E ali estava nosso representante do povo, ostentando uma picanha que custava mais que o salário mínimo de muita gente.

Não preciso ser formado em Harvard para saber que a equação "momento delicado + ostentação involuntária + redes sociais" resulta em uma só coisa: problema com P maiúsculo.

O Inferno Digital Se Abriu

Os comentários começaram a chover como granizo em dia de calor. E não eram exatamente elogios à qualidade da carne, se é que vocês me entendem.

"Enquanto o povo passa fome, ele come picanha!" "Fácil ostentar com dinheiro público!" "Que tal dividir essa carne com quem precisa?"

E por aí foi… A caixa de comentários virou um verdadeiro tribunal popular, com direito a júri, promotoria e tudo. A picanha havia se transformado no símbolo da desconexão entre representante e representados.

Resultado prático? Nossa equipe virou um esquadrão anti-bombas tentando conter os estragos. 

As Lições Que Ficaram

Essa história aparentemente cômica nos ensinou algumas verdades amargas sobre comunicação política:

Timing é tudo. Em política, não existe post inocente. Cada publicação precisa ser analisada através das lentes do momento histórico, social e econômico que estamos vivendo. Uma foto de comida pode ser apenas uma foto de comida, ou pode ser uma declaração política involuntária.

Percepção é realidade. Não importa se o deputado comprou a picanha com o próprio dinheiro, se foi presente, ou se encontrou na rua. Na era digital, a percepção do público se torna verdade absoluta em questão de minutos.

A espontaneidade tem preço. Aquela ideia romântica de "ser autêntico e espontâneo" nas redes pode custar caro quando você é uma figura pública. Cada post é uma mini campanha, querendo ou não.

Context is king. Uma picanha em 2019 seria apenas uma picanha. Uma picanha em 2021, no auge da crise econômica, virou símbolo de insensibilidade social. O contexto transforma tudo.

E Hoje, Como Seria?

Curiosamente, se hoje alguém postasse a mesma foto, talvez a reação fosse diferente. O Brasil de 2025 não é o mesmo de 2021. A economia se recuperou, os preços se estabilizaram, e aquela sensação de desespero coletivo já não paira no ar como antes.

Mas a lição permanece: em comunicação política, não existem posts neutros. Cada publicação é uma escolha estratégica, mesmo quando não pretende ser.

O Que Aprendemos (Além de Checar os Posts Antes)

Essa experiência nos ensinou que gerenciar a comunicação de um político é um pouco como ser sommelier de vinhos: você precisa saber qual conteúdo combina com qual momento, ou vai dar tudo errado.

Também descobrimos que crises digitais podem nascer dos lugares mais inesperados. Às vezes não é o pronunciamento polêmico ou a proposta controversa que gera problema – é uma simples foto de almoço que pega o momento errado.

E, talvez mais importante: aprendemos a importância de ter protocolos claros de comunicação. Hoje, qualquer post passa por uma checagem básica: "Como isso pode ser interpretado? Qual o contexto atual? Existe algum risco reputacional?"

Moral da História

No final das contas, a picanha virou um símbolo interno na nossa equipe. Sempre que alguém quer postar algo meio arriscado, a pergunta que fazemos é: "Isso é uma picanha?"

E sabe de uma coisa? Desde então, nosso deputado nunca mais postou comida sem avisar. Coincidência? Acho que não.

A comunicação política é um jogo de xadrez onde cada movimento importa, e às vezes uma peça aparentemente insignificante – como uma foto de churrasco – pode dar xeque-mate na sua reputação.

Então fica a dica para todos os comunicadores políticos por aí: antes de postar, respirem fundo e se perguntem: "Qual é o contexto? Como isso pode ser interpretado? E, principalmente… isso é uma picanha?"

Porque no mundo da política digital, até a carne mais suculenta pode virar um pesadelo bem passado.

 

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