Lula aposta no marketing do medo. Mas por que só agora?

08/10/2026 às 11:31:51

A virada de chave do PT

A campanha de Lula mudou o tom. A nova aposta é o medo.

Segundo a Reuters, a mudança foi definida numa reunião na noite de 5 de outubro, em Brasília, um dia depois do primeiro turno. A ideia é mostrar que programas hoje dados como garantidos podem sumir se Flávio Bolsonaro vencer .

Pé-de-Meia, Mais Médicos, Farmácia Popular, aposentadoria. Esses são os temas que vão aparecer na propaganda.

Como estrategista, acho a escolha válida. Mas ela chega tarde. E isso diz muito sobre o primeiro turno.

A conta que assusta o PT

Hoje a diferença é de 2,2 milhões de votos. Flávio teve 56.104.503. Lula, 53.879.538 .

E o vento sopra contra. A Quaest perguntou aos eleitores da terceira via em quem votariam num segundo turno entre os dois :

Eleitor de

Votos no 1º turno

Vai para Flávio

Vai para Lula

Augusto Cury (2,89%)

3,4 milhões

34%

23%

Renan Santos (2,24%)

2,7 milhões

60%

11%

Ronaldo Caiado (2,18%)

2,6 milhões

43%

19%

Se essa transferência se confirmar, Flávio ganha cerca de 2,3 milhões de votos líquidos. A diferença saltaria para algo perto de 4,5 milhões.

A pesquisa foi feita antes do primeiro turno e muita gente ainda pode mudar. Mas o recado é claro: Lula precisa buscar voto em outras freguesias e, ao mesmo tempo, impedir que Flávio cresça.

Por que o medo funciona

Marketing do medo não é para ganhar voto. É para impedir que o adversário ganhe.

O eleitor da terceira via ainda está em dúvida. Entre os de Cury, 41% dizem que votariam branco, nulo ou nem iriam votar. Esse eleitor não precisa amar Lula. Basta ficar com medo o suficiente para não apertar o 22.

E tem um segundo alvo. Cerca de 33 milhões de brasileiros não foram votar no primeiro turno, e a campanha quer mobilizar parte deles, principalmente no Nordeste e nas periferias . Também quer levar às urnas os idosos acima de 70 anos, para quem o voto é facultativo .

Medo de perder a aposentadoria, o remédio, a bolsa do filho. Isso tira gente do sofá. A psicologia explica: o medo de perder pesa mais do que a vontade de ganhar.

Os obstáculos

O primeiro é o relógio. Faltam poucos dias para 25 de outubro. Medo não se planta em prazos curtos. Ele precisa de repetição, de exemplo concreto, de tempo para virar conversa de família.

O segundo é o próprio Flávio. Ele já disse em entrevista que vai manter o Bolsa Família e garantir o reajuste de 15% anunciado por Lula . Ou seja: o adversário já entrou vacinado.

E tem um terceiro ponto, que vem de dentro. Segundo a Reuters, o próprio Lula se queixou de que a campanha falhou com jovens e mulheres. Aliados cobram mais presença nas redes, algo que ele resiste a fazer. Aos 80 anos, Lula nem carrega celular. Marketing do medo em 2026 sem rede social forte é correr com o freio de mão puxado.

Teve esse marketing do medo no primeiro turno?

No começo da campanha, a estratégia petista foi justamente não concentrar fogo em Flávio. A aposta era que ele se desgastaria sozinho.

Isso mudou em meados de setembro. Com Lula só três pontos à frente no Datafolha, a campanha antecipou ataques que estavam guardados para o segundo turno. O foco foi ligar Flávio ao caso Banco Master e a aliados com suspeita de envolvimento com facções. 

Perceba a diferença. Aquilo era campanha negativa sobre o caráter do adversário. O que vem agora é medo sobre a vida do eleitor. Uma coisa é dizer que o outro é ruim. Outra é dizer que você vai perder o seu.

E o resultado do primeiro turno sugere que o ataque ao caráter não colou. A rejeição aos Bolsonaro já estava precificada.

Excesso de confiança custa caro

Por que não fizeram isso antes? A resposta mais provável é simples: acharam que não precisava.

Em agosto, a coluna do PlatôBR relatou que o PT via Flávio como o adversário que mais interessava a Lula. Um auxiliar do presidente dizia que ele tinha muito pouco a oferecer . Na Band, Eduardo Oinegue lembrou que petistas, bolsonaristas raiz e empresários descreviam Flávio como o adversário ideal para Lula derrotar.

Depois da apuração, a comentarista Andréia Sadi avaliou que a equipe de Lula subestimou Flávio e a força do antipetismo. E, segundo a Exame, o próprio Lula admitiu no discurso pós-resultado que imaginava ganhar no primeiro turno .

O aviso existia. Em fevereiro, João Paulo Cunha, conselheiro de Lula, já dizia que o PT estava subestimando Flávio e que a rejeição aos Bolsonaro estava precificada 

Agora é correr atrás do prejuízo.

A estratégia certa, no calendário errado

O marketing do medo é a jogada certa para o momento. Ele trava o crescimento de Flávio e pode tirar eleitor do sofá.

Mas ele chega com um prazo curto de execução, contra um adversário que já prometeu manter o Bolsa Família, e com um candidato que resiste às redes. É a mesma doença do artigo anterior: a pauta certa na hora errada.

Se tivesse começado em agosto, o PT estaria colhendo agora. Começando em outubro, está plantando com a colheita marcada para daqui a duas semanas e meia.

Dá para virar? Dá. Eleição só termina na apuração. Mas, se não virar, o excesso de confiança vai ser o primeiro nome na lista de culpados.

E você, acha que o medo ainda dá tempo? Comenta aí.

Fontes consultadas: Reuters via Antena 1 · Terra, estratégia do medo · Brasil em Folhas · Brasil 247, abstencionistas · Brasil 247, programas sociais · Brasil 247, Farmácia Popular · Poder360 · SpaceMoney · Terra, terceira via · Blog Edmar Lyra · CNN Brasil · Jornal de Brasília · PlatôBR · Band · Blog do Elias Hacker · Exame · Gazeta do Povo

Fale via WhatsApp