Lula aposta no marketing do medo. Mas por que só agora?

A virada de chave do PT
A campanha de Lula mudou o tom. A nova aposta é o medo.
Segundo a Reuters, a mudança foi definida numa reunião na noite de 5 de outubro, em Brasília, um dia depois do primeiro turno. A ideia é mostrar que programas hoje dados como garantidos podem sumir se Flávio Bolsonaro vencer .
Pé-de-Meia, Mais Médicos, Farmácia Popular, aposentadoria. Esses são os temas que vão aparecer na propaganda.
Como estrategista, acho a escolha válida. Mas ela chega tarde. E isso diz muito sobre o primeiro turno.
A conta que assusta o PT
Hoje a diferença é de 2,2 milhões de votos. Flávio teve 56.104.503. Lula, 53.879.538 .
E o vento sopra contra. A Quaest perguntou aos eleitores da terceira via em quem votariam num segundo turno entre os dois :
|
Eleitor de |
Votos no 1º turno |
Vai para Flávio |
Vai para Lula |
|---|---|---|---|
|
Augusto Cury (2,89%) |
3,4 milhões |
34% |
23% |
|
Renan Santos (2,24%) |
2,7 milhões |
60% |
11% |
|
Ronaldo Caiado (2,18%) |
2,6 milhões |
43% |
19% |
Se essa transferência se confirmar, Flávio ganha cerca de 2,3 milhões de votos líquidos. A diferença saltaria para algo perto de 4,5 milhões.
A pesquisa foi feita antes do primeiro turno e muita gente ainda pode mudar. Mas o recado é claro: Lula precisa buscar voto em outras freguesias e, ao mesmo tempo, impedir que Flávio cresça.
Por que o medo funciona
Marketing do medo não é para ganhar voto. É para impedir que o adversário ganhe.
O eleitor da terceira via ainda está em dúvida. Entre os de Cury, 41% dizem que votariam branco, nulo ou nem iriam votar. Esse eleitor não precisa amar Lula. Basta ficar com medo o suficiente para não apertar o 22.
E tem um segundo alvo. Cerca de 33 milhões de brasileiros não foram votar no primeiro turno, e a campanha quer mobilizar parte deles, principalmente no Nordeste e nas periferias . Também quer levar às urnas os idosos acima de 70 anos, para quem o voto é facultativo .
Medo de perder a aposentadoria, o remédio, a bolsa do filho. Isso tira gente do sofá. A psicologia explica: o medo de perder pesa mais do que a vontade de ganhar.
Os obstáculos
O primeiro é o relógio. Faltam poucos dias para 25 de outubro. Medo não se planta em prazos curtos. Ele precisa de repetição, de exemplo concreto, de tempo para virar conversa de família.
O segundo é o próprio Flávio. Ele já disse em entrevista que vai manter o Bolsa Família e garantir o reajuste de 15% anunciado por Lula . Ou seja: o adversário já entrou vacinado.
E tem um terceiro ponto, que vem de dentro. Segundo a Reuters, o próprio Lula se queixou de que a campanha falhou com jovens e mulheres. Aliados cobram mais presença nas redes, algo que ele resiste a fazer. Aos 80 anos, Lula nem carrega celular. Marketing do medo em 2026 sem rede social forte é correr com o freio de mão puxado.
Teve esse marketing do medo no primeiro turno?
No começo da campanha, a estratégia petista foi justamente não concentrar fogo em Flávio. A aposta era que ele se desgastaria sozinho.
Isso mudou em meados de setembro. Com Lula só três pontos à frente no Datafolha, a campanha antecipou ataques que estavam guardados para o segundo turno. O foco foi ligar Flávio ao caso Banco Master e a aliados com suspeita de envolvimento com facções.
Perceba a diferença. Aquilo era campanha negativa sobre o caráter do adversário. O que vem agora é medo sobre a vida do eleitor. Uma coisa é dizer que o outro é ruim. Outra é dizer que você vai perder o seu.
E o resultado do primeiro turno sugere que o ataque ao caráter não colou. A rejeição aos Bolsonaro já estava precificada.
Excesso de confiança custa caro
Por que não fizeram isso antes? A resposta mais provável é simples: acharam que não precisava.
Em agosto, a coluna do PlatôBR relatou que o PT via Flávio como o adversário que mais interessava a Lula. Um auxiliar do presidente dizia que ele tinha muito pouco a oferecer . Na Band, Eduardo Oinegue lembrou que petistas, bolsonaristas raiz e empresários descreviam Flávio como o adversário ideal para Lula derrotar.
Depois da apuração, a comentarista Andréia Sadi avaliou que a equipe de Lula subestimou Flávio e a força do antipetismo. E, segundo a Exame, o próprio Lula admitiu no discurso pós-resultado que imaginava ganhar no primeiro turno .
O aviso existia. Em fevereiro, João Paulo Cunha, conselheiro de Lula, já dizia que o PT estava subestimando Flávio e que a rejeição aos Bolsonaro estava precificada
Agora é correr atrás do prejuízo.
A estratégia certa, no calendário errado
O marketing do medo é a jogada certa para o momento. Ele trava o crescimento de Flávio e pode tirar eleitor do sofá.
Mas ele chega com um prazo curto de execução, contra um adversário que já prometeu manter o Bolsa Família, e com um candidato que resiste às redes. É a mesma doença do artigo anterior: a pauta certa na hora errada.
Se tivesse começado em agosto, o PT estaria colhendo agora. Começando em outubro, está plantando com a colheita marcada para daqui a duas semanas e meia.
Dá para virar? Dá. Eleição só termina na apuração. Mas, se não virar, o excesso de confiança vai ser o primeiro nome na lista de culpados.
E você, acha que o medo ainda dá tempo? Comenta aí.
Fontes consultadas: Reuters via Antena 1 · Terra, estratégia do medo · Brasil em Folhas · Brasil 247, abstencionistas · Brasil 247, programas sociais · Brasil 247, Farmácia Popular · Poder360 · SpaceMoney · Terra, terceira via · Blog Edmar Lyra · CNN Brasil · Jornal de Brasília · PlatôBR · Band · Blog do Elias Hacker · Exame · Gazeta do Povo





