A matemática aponta Flávio, e debate da Globo é a última chance de Lula

21/10/2026 às 16:10:39

Faltam quatro dias para o 2º turno. Saiu a Quaest desta quarta-feira (21), e eu fiz o que venho fazendo a cada rodada: peguei os votos reais do 1º turno, apliquei a transferência de votos da pesquisa e refiz a conta.

O resultado é claro. A matemática do momento aponta Flávio Bolsonaro como o próximo presidente. Na projeção, ele vence por cerca de 3,6 milhões de votos.

Na semana passada, escrevi que Lula tinha ganhado uma sobrevida. Essa sobrevida parou de crescer. Nem a aprovação do fim da escala 6x1, nem o pacote de medidas da reta final, nem o debate da Band mexeram no placar.

Sobra para Lula uma última carta: o debate da Globo, na sexta-feira (23).

Vamos aos números.

O que a Quaest mostra

No placar geral, Flávio tem 45% e Lula, 44%. Brancos e nulos somam 9%, e indecisos, 2%. Nos votos válidos, isso dá algo entre 50,5% e 51% para Flávio.

Em uma semana, Flávio oscilou 1 ponto para baixo, dentro da margem de erro. Lula ficou parado nos mesmos 44%.

 

Quaest 14/10

Quaest 21/10

Flávio

46%

45%

Lula

44%

44%

A pesquisa ouviu 2.154 pessoas entre 17 e 20 de outubro, com margem de erro de 2 pontos. Ou seja, o levantamento já pega a semana da aprovação da 6x1 e o debate da Band, no dia 18.

Na manchete, é empate técnico. Mas a manchete não conta a história toda. Ela trata quem faltou no 1º turno como se fosse votar no domingo. A minha conta usa o voto que de fato foi depositado na urna. E aí o retrato muda.

A projeção para domingo

Pelos votos reais, Flávio vence por 3.577.404 votos. Ele terminaria com 51,53% dos válidos, contra 48,47% de Lula.

O método é o mesmo das outras rodadas. Flávio saiu do 1º turno com 56.104.422 votos e Lula, com 53.878.385. Em cima disso, apliquei como os eleitores de cada candidato derrotado dizem que vão votar agora. Para Zema, mantive a Quaest de setembro, porque a rodada nova não traz esse recorte.

Eleitores de

% Flávio

% Lula

Votos para Flávio

Votos para Lula

Não transferem

Cury

33%

48%

1.138.028

1.655.313

655.228

Renan Santos

51%

25%

1.364.702

668.972

642.213

Caiado

57%

21%

1.484.934

547.081

573.133

Zema

81%

9%

264.453

29.384

32.648

Total

 

 

4.252.117

2.900.750

1.903.222

Não transferem = branco, nulo, abstenção ou indeciso.

O placar fica assim:

  • Flávio: 60.356.539 votos (51,53%)
  • Lula: 56.779.135 votos (48,47%)
  • Diferença: 3.577.404 votos

Agora compare com as duas rodadas anteriores:

 

Projeção de 6/10

Projeção de 14/10

Projeção de 21/10

Vantagem de Flávio

4,78 milhões

3,51 milhões

3,58 milhões

Eleitores de Flávio que Lula precisa virar

2,4 milhões

1,76 milhão

1,79 milhão

De 6 para 14 de outubro, Lula tirou 1,26 milhão de votos da diferença. De 14 para 21, não tirou nada. A diferença até aumentou um pouco, cerca de 64 mil votos.

A sobrevida parou de crescer.

A terceira via decidiu, e decidiu dividida

A grande novidade da semana é que o eleitor da terceira via saiu de cima do muro. Os brancos, nulos e indecisos despencaram nos três grupos. Só que esse voto não foi para um lado só.

Eleitores de

Flávio (14/10 → 21/10)

Lula (14/10 → 21/10)

Branco, nulo e indeciso (14/10 → 21/10)

Cury

30% → 33%

34% → 48%

36% → 19%

Renan Santos

40% → 51%

14% → 25%

46% → 24%

Caiado

42% → 57%

23% → 21%

35% → 22%

O quadro é de equilíbrio:

  • Lula consolidou o eleitor de Cury. Subiu 14 pontos e agora lidera com folga nesse grupo.
  • Flávio recuperou o eleitor de Renan. Na semana passada, esse eleitor tinha esfriado. Agora voltou: Flávio subiu 11 pontos. Lula também subiu 11, mas partindo de muito mais baixo.
  • Flávio blindou o eleitor de Caiado. Subiu 15 pontos, e Lula oscilou para baixo.

No saldo, Flávio tira cerca de 1,35 milhão de votos líquidos da terceira via. Na semana passada, eram 1,29 milhão. Praticamente o mesmo.

Traduzindo: os dois avançaram, e um anulou o outro. Para quem está atrás, empatar a semana é perder tempo.

A abstenção ajuda Lula ainda menos

Na semana passada, mostrei que o eleitor que faltou, anulou ou votou em branco no 1º turno pendia pouco para Lula. Agora pende menos ainda.

Quem não votou, anulou ou votou em branco

Quaest 14/10

Quaest 21/10

Lula

43%

40%

Flávio

38%

36%

Branco, nulo ou não vai votar

17%

21%

Indecisos

2%

3%

Duas coisas aconteceram. A vantagem de Lula no grupo caiu de 5 para 4 pontos. E a fatia que diz que vai ficar em casa ou anular de novo subiu de 17% para 21%.

Refazendo a conta nos dois cenários:

  • Cenário impossível: todos os 39,4 milhões do grupo vão às urnas e votam como disseram à pesquisa. Lula tira 1,58 milhão de saldo. Na semana passada, eram 1,97 milhão. E continua longe dos 3,58 milhões que faltam.
  • Cenário realista: a abstenção cai como em 2022, com cerca de 560 mil eleitores a mais. Lula ganha uns 29 mil votos.

O eleitor que ficou em casa não vai salvar Lula. Nunca ia, e agora vai menos ainda.

Nem o pacotão de bondades virou o jogo

Se tem uma coisa que o governo não economizou na reta final, foi anúncio. A imprensa batizou o conjunto de pacote de bondades. Segundo levantamento do Poder360, as medidas anunciadas entre janeiro e 13 de outubro já somam R$ 248,7 bilhões em impacto financeiro em 2026. A Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado, estima perto de R$ 300 bilhões.

Só no 2º turno, os anúncios aceleraram:

Data

Medida

13/10

Prospera MEI: perdão de R$ 12,6 bilhões em dívidas, auxílio de até R$ 5 mil, aumento do teto de faturamento

13/10

Pé-de-Meia Universitário

14/10

Aprovação do fim da escala 6x1 no Senado, por 75 a 1

15 e 16/10

Proposta de tarifa zero no transporte coletivo aos fins de semana, via PEC bancada com recursos de emendas

19/10

Primeiro pagamento do Bolsa Família reajustado

A maior parte disso foi anunciada antes da Quaest ir a campo, entre 17 e 20 de outubro. O eleitor já tinha ouvido falar.

E o resultado? Lula ficou parado nos 44%. Na projeção com votos reais, a diferença não caiu um voto sequer.

O pacote pode até ter segurado Lula de pió. Mas não gerou virada. E não dá para culpar só o tempo: muita coisa ali ainda depende de lei, regulamentação ou aprovação no Congresso. Promessa anunciada a dez dias da eleição costuma ser recebida pelo eleitor como promessa, não como benefício no bolso.

E tem um detalhe sobre a 6x1, a medida mais popular da lista. Flávio votou a favor. Ao fazer isso, tirou de Lula a chance de transformar o tema num nós contra eles.

Sexta-feira, na Globo: a última bala de Lula

O primeiro cara a cara entre os dois aconteceu no domingo (18), na Band. Foi um debate de ataques. Lula desafiou Flávio a abrir os sigilos bancário e telefônico. Flávio cobrou Lula sobre as investigações envolvendo o filho, Fábio Luís, e apostou em segurança pública.

Não houve nocaute. E a Quaest, que pegou os dois dias seguintes ao debate, não mostrou Lula subindo.

Sobra o debate da Globo, na sexta-feira (23), a dois dias da eleição. É a última vez que os dois vão se encontrar diante do maior público da campanha. E é a última chance real de Lula mexer na conta.

O tamanho da missão é este: virar cerca de 1,79 milhão de eleitores de Flávio. Isso é pouco mais de 3 em cada 100 eleitores dele. E precisa acontecer em uma noite, com o eleitor já decidido, a 48 horas da urna.

As missões de cada um são opostas:

  • Lula precisa de um momento. Uma frase, uma resposta, um erro do adversário que domine o sábado nas redes e nos grupos de WhatsApp. Debate morno é vitória de Flávio.
  • Flávio precisa não errar. Quem está na frente joga para segurar. Se ele sair da Globo sem um tropeço que vire meme, a matemática faz o resto.

E tem o relógio. Um erro na sexta não tem tempo de conserto. Um acerto não tem tempo de ser rebatido. É o debate de maior risco da campanha, e o risco é maior para quem está na frente. Mas a necessidade é maior para quem está atrás.

Favorito ainda não é eleito

A matemática aponta Flávio. Mas projeção não é urna, e eu não seria honesto se não mostrasse onde essa conta pode falhar.

1. A pesquisa está mais apertada que a projeção. Na Quaest, a diferença é de 1 ponto, empate técnico. Na minha conta, são 3 pontos nos válidos. A diferença está numa premissa: a pesquisa trata quem faltou no 1º turno como se fosse votar. Esse grupo é cerca de 22% da amostra. Se ele for às urnas em peso no domingo, a disputa fica mais perto da pesquisa. Se repetir o comportamento de sempre, fica mais perto da projeção.

2. Os recortes têm margens enormes. Na própria Quaest, a margem de erro é de 17 pontos entre os eleitores de Cury, 24 entre os de Caiado e 20 entre os de Renan. Cada movimento isolado pode ser ruído. O que merece confiança é o saldo somado, e ele ficou estável.

3. Parte do efeito ainda pode não ter aparecido. A pesquisa pegou só dois dias depois do debate da Band. Medidas econômicas também podem demorar a virar percepção.

4. Duas premissas minhas. Mantive Zema com os números de setembro e considerei que quem votou em Lula e Flávio no 1º turno repete o voto. As duas mexem pouco na conta.

Nada disso inverte o quadro. Mas significa que Flávio chega a domingo como favorito, não como eleito.

O retrato a quatro dias da urna

Três rodadas da Quaest, três projeções, e a mesma conclusão: Flávio na frente.

Na primeira semana, Lula encurtou a distância. Na segunda, parou. A terceira via decidiu e se dividiu. A abstenção não salva ninguém. E nem o pacote de bondades, nem a 6x1, nem o debate da Band tiraram um voto sequer da diferença.

Pela matemática de hoje, Flávio Bolsonaro deve ser eleito no domingo, com cerca de 51,5% dos votos válidos.

Para mudar isso, Lula tem uma noite. A de sexta-feira, na Globo. Ali ele precisa convencer 3 em cada 100 eleitores do adversário a trocar de lado. Não é impossível. Mas, até agora, nada nesta campanha conseguiu isso.

E você, acha que o debate da Globo ainda pode virar essa eleição? Me conta nos comentários.

Fontes

Pesquisas

Pacote de medidas

Debates

Projeção feita pelo autor a partir dos dados acima.

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