A matemática aponta Flávio, e debate da Globo é a última chance de Lula

Faltam quatro dias para o 2º turno. Saiu a Quaest desta quarta-feira (21), e eu fiz o que venho fazendo a cada rodada: peguei os votos reais do 1º turno, apliquei a transferência de votos da pesquisa e refiz a conta.
O resultado é claro. A matemática do momento aponta Flávio Bolsonaro como o próximo presidente. Na projeção, ele vence por cerca de 3,6 milhões de votos.
Na semana passada, escrevi que Lula tinha ganhado uma sobrevida. Essa sobrevida parou de crescer. Nem a aprovação do fim da escala 6x1, nem o pacote de medidas da reta final, nem o debate da Band mexeram no placar.
Sobra para Lula uma última carta: o debate da Globo, na sexta-feira (23).
Vamos aos números.
O que a Quaest mostra
No placar geral, Flávio tem 45% e Lula, 44%. Brancos e nulos somam 9%, e indecisos, 2%. Nos votos válidos, isso dá algo entre 50,5% e 51% para Flávio.
Em uma semana, Flávio oscilou 1 ponto para baixo, dentro da margem de erro. Lula ficou parado nos mesmos 44%.
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Quaest 14/10 |
Quaest 21/10 |
|---|---|---|
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Flávio |
46% |
45% |
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Lula |
44% |
44% |
A pesquisa ouviu 2.154 pessoas entre 17 e 20 de outubro, com margem de erro de 2 pontos. Ou seja, o levantamento já pega a semana da aprovação da 6x1 e o debate da Band, no dia 18.
Na manchete, é empate técnico. Mas a manchete não conta a história toda. Ela trata quem faltou no 1º turno como se fosse votar no domingo. A minha conta usa o voto que de fato foi depositado na urna. E aí o retrato muda.
A projeção para domingo
Pelos votos reais, Flávio vence por 3.577.404 votos. Ele terminaria com 51,53% dos válidos, contra 48,47% de Lula.
O método é o mesmo das outras rodadas. Flávio saiu do 1º turno com 56.104.422 votos e Lula, com 53.878.385. Em cima disso, apliquei como os eleitores de cada candidato derrotado dizem que vão votar agora. Para Zema, mantive a Quaest de setembro, porque a rodada nova não traz esse recorte.
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Eleitores de |
% Flávio |
% Lula |
Votos para Flávio |
Votos para Lula |
Não transferem |
|---|---|---|---|---|---|
|
Cury |
33% |
48% |
1.138.028 |
1.655.313 |
655.228 |
|
Renan Santos |
51% |
25% |
1.364.702 |
668.972 |
642.213 |
|
Caiado |
57% |
21% |
1.484.934 |
547.081 |
573.133 |
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Zema |
81% |
9% |
264.453 |
29.384 |
32.648 |
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Total |
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4.252.117 |
2.900.750 |
1.903.222 |
Não transferem = branco, nulo, abstenção ou indeciso.
O placar fica assim:
- Flávio: 60.356.539 votos (51,53%)
- Lula: 56.779.135 votos (48,47%)
- Diferença: 3.577.404 votos
Agora compare com as duas rodadas anteriores:
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Projeção de 6/10 |
Projeção de 14/10 |
Projeção de 21/10 |
|---|---|---|---|
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Vantagem de Flávio |
4,78 milhões |
3,51 milhões |
3,58 milhões |
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Eleitores de Flávio que Lula precisa virar |
2,4 milhões |
1,76 milhão |
1,79 milhão |
De 6 para 14 de outubro, Lula tirou 1,26 milhão de votos da diferença. De 14 para 21, não tirou nada. A diferença até aumentou um pouco, cerca de 64 mil votos.
A sobrevida parou de crescer.
A terceira via decidiu, e decidiu dividida
A grande novidade da semana é que o eleitor da terceira via saiu de cima do muro. Os brancos, nulos e indecisos despencaram nos três grupos. Só que esse voto não foi para um lado só.
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Eleitores de |
Flávio (14/10 → 21/10) |
Lula (14/10 → 21/10) |
Branco, nulo e indeciso (14/10 → 21/10) |
|---|---|---|---|
|
Cury |
30% → 33% |
34% → 48% |
36% → 19% |
|
Renan Santos |
40% → 51% |
14% → 25% |
46% → 24% |
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Caiado |
42% → 57% |
23% → 21% |
35% → 22% |
O quadro é de equilíbrio:
- Lula consolidou o eleitor de Cury. Subiu 14 pontos e agora lidera com folga nesse grupo.
- Flávio recuperou o eleitor de Renan. Na semana passada, esse eleitor tinha esfriado. Agora voltou: Flávio subiu 11 pontos. Lula também subiu 11, mas partindo de muito mais baixo.
- Flávio blindou o eleitor de Caiado. Subiu 15 pontos, e Lula oscilou para baixo.
No saldo, Flávio tira cerca de 1,35 milhão de votos líquidos da terceira via. Na semana passada, eram 1,29 milhão. Praticamente o mesmo.
Traduzindo: os dois avançaram, e um anulou o outro. Para quem está atrás, empatar a semana é perder tempo.
A abstenção ajuda Lula ainda menos
Na semana passada, mostrei que o eleitor que faltou, anulou ou votou em branco no 1º turno pendia pouco para Lula. Agora pende menos ainda.
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Quem não votou, anulou ou votou em branco |
Quaest 14/10 |
Quaest 21/10 |
|---|---|---|
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Lula |
43% |
40% |
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Flávio |
38% |
36% |
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Branco, nulo ou não vai votar |
17% |
21% |
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Indecisos |
2% |
3% |
Duas coisas aconteceram. A vantagem de Lula no grupo caiu de 5 para 4 pontos. E a fatia que diz que vai ficar em casa ou anular de novo subiu de 17% para 21%.
Refazendo a conta nos dois cenários:
- Cenário impossível: todos os 39,4 milhões do grupo vão às urnas e votam como disseram à pesquisa. Lula tira 1,58 milhão de saldo. Na semana passada, eram 1,97 milhão. E continua longe dos 3,58 milhões que faltam.
- Cenário realista: a abstenção cai como em 2022, com cerca de 560 mil eleitores a mais. Lula ganha uns 29 mil votos.
O eleitor que ficou em casa não vai salvar Lula. Nunca ia, e agora vai menos ainda.
Nem o pacotão de bondades virou o jogo
Se tem uma coisa que o governo não economizou na reta final, foi anúncio. A imprensa batizou o conjunto de pacote de bondades. Segundo levantamento do Poder360, as medidas anunciadas entre janeiro e 13 de outubro já somam R$ 248,7 bilhões em impacto financeiro em 2026. A Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado, estima perto de R$ 300 bilhões.
Só no 2º turno, os anúncios aceleraram:
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Data |
Medida |
|---|---|
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13/10 |
Prospera MEI: perdão de R$ 12,6 bilhões em dívidas, auxílio de até R$ 5 mil, aumento do teto de faturamento |
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13/10 |
Pé-de-Meia Universitário |
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14/10 |
Aprovação do fim da escala 6x1 no Senado, por 75 a 1 |
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15 e 16/10 |
Proposta de tarifa zero no transporte coletivo aos fins de semana, via PEC bancada com recursos de emendas |
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19/10 |
Primeiro pagamento do Bolsa Família reajustado |
A maior parte disso foi anunciada antes da Quaest ir a campo, entre 17 e 20 de outubro. O eleitor já tinha ouvido falar.
E o resultado? Lula ficou parado nos 44%. Na projeção com votos reais, a diferença não caiu um voto sequer.
O pacote pode até ter segurado Lula de pió. Mas não gerou virada. E não dá para culpar só o tempo: muita coisa ali ainda depende de lei, regulamentação ou aprovação no Congresso. Promessa anunciada a dez dias da eleição costuma ser recebida pelo eleitor como promessa, não como benefício no bolso.
E tem um detalhe sobre a 6x1, a medida mais popular da lista. Flávio votou a favor. Ao fazer isso, tirou de Lula a chance de transformar o tema num nós contra eles.
Sexta-feira, na Globo: a última bala de Lula
O primeiro cara a cara entre os dois aconteceu no domingo (18), na Band. Foi um debate de ataques. Lula desafiou Flávio a abrir os sigilos bancário e telefônico. Flávio cobrou Lula sobre as investigações envolvendo o filho, Fábio Luís, e apostou em segurança pública.
Não houve nocaute. E a Quaest, que pegou os dois dias seguintes ao debate, não mostrou Lula subindo.
Sobra o debate da Globo, na sexta-feira (23), a dois dias da eleição. É a última vez que os dois vão se encontrar diante do maior público da campanha. E é a última chance real de Lula mexer na conta.
O tamanho da missão é este: virar cerca de 1,79 milhão de eleitores de Flávio. Isso é pouco mais de 3 em cada 100 eleitores dele. E precisa acontecer em uma noite, com o eleitor já decidido, a 48 horas da urna.
As missões de cada um são opostas:
- Lula precisa de um momento. Uma frase, uma resposta, um erro do adversário que domine o sábado nas redes e nos grupos de WhatsApp. Debate morno é vitória de Flávio.
- Flávio precisa não errar. Quem está na frente joga para segurar. Se ele sair da Globo sem um tropeço que vire meme, a matemática faz o resto.
E tem o relógio. Um erro na sexta não tem tempo de conserto. Um acerto não tem tempo de ser rebatido. É o debate de maior risco da campanha, e o risco é maior para quem está na frente. Mas a necessidade é maior para quem está atrás.
Favorito ainda não é eleito
A matemática aponta Flávio. Mas projeção não é urna, e eu não seria honesto se não mostrasse onde essa conta pode falhar.
1. A pesquisa está mais apertada que a projeção. Na Quaest, a diferença é de 1 ponto, empate técnico. Na minha conta, são 3 pontos nos válidos. A diferença está numa premissa: a pesquisa trata quem faltou no 1º turno como se fosse votar. Esse grupo é cerca de 22% da amostra. Se ele for às urnas em peso no domingo, a disputa fica mais perto da pesquisa. Se repetir o comportamento de sempre, fica mais perto da projeção.
2. Os recortes têm margens enormes. Na própria Quaest, a margem de erro é de 17 pontos entre os eleitores de Cury, 24 entre os de Caiado e 20 entre os de Renan. Cada movimento isolado pode ser ruído. O que merece confiança é o saldo somado, e ele ficou estável.
3. Parte do efeito ainda pode não ter aparecido. A pesquisa pegou só dois dias depois do debate da Band. Medidas econômicas também podem demorar a virar percepção.
4. Duas premissas minhas. Mantive Zema com os números de setembro e considerei que quem votou em Lula e Flávio no 1º turno repete o voto. As duas mexem pouco na conta.
Nada disso inverte o quadro. Mas significa que Flávio chega a domingo como favorito, não como eleito.
O retrato a quatro dias da urna
Três rodadas da Quaest, três projeções, e a mesma conclusão: Flávio na frente.
Na primeira semana, Lula encurtou a distância. Na segunda, parou. A terceira via decidiu e se dividiu. A abstenção não salva ninguém. E nem o pacote de bondades, nem a 6x1, nem o debate da Band tiraram um voto sequer da diferença.
Pela matemática de hoje, Flávio Bolsonaro deve ser eleito no domingo, com cerca de 51,5% dos votos válidos.
Para mudar isso, Lula tem uma noite. A de sexta-feira, na Globo. Ali ele precisa convencer 3 em cada 100 eleitores do adversário a trocar de lado. Não é impossível. Mas, até agora, nada nesta campanha conseguiu isso.
E você, acha que o debate da Globo ainda pode virar essa eleição? Me conta nos comentários.
Fontes
Pesquisas
- Quaest/Globo, 17 a 20/10/2026, 2.154 entrevistas, margem de erro de 2 pontos, registro BR-08535/2026. Placar geral: CNN Brasil, Poder360 e Tribuna de Jundiaí. Transferência de votos: g1 e Portal Leo Dias.
- Quaest/Globo, 10 a 13/10/2026: BNC Amazonas.
- Projeções anteriores, resultados do 1º turno e abstenção: A matemática do 2º turno.
Pacote de medidas
- Soma de R$ 248,7 bilhões: Poder360.
- Estimativa da IFI e reajuste do Bolsa Família: O Tempo.
- Medidas do 2º turno por data: Times Brasil e Times Brasil.
- Data do primeiro pagamento do Bolsa Família reajustado: Cláudio Dantas.
- Votação da 6x1: O Tempo.
Debates
- Debate da Band: Band e Agência Brasil.
- Debate da Globo em 23/10: Diário do Nordeste.
Projeção feita pelo autor a partir dos dados acima.





