Perder a eleição não dá a ninguém o direito de atacar o Nordeste

Ficar triste com o resultado de uma eleição é direito de qualquer um. Atacar alguém pelo lugar onde nasceu, não.
Quero começar este texto deixando uma coisa clara. Eu entendo a frustração de quem votou em Flávio. Quase todas as pesquisas apontavam para ele. Eu mesmo errei a projeção. Quem foi dormir no sábado achando que ia comemorar no domingo tem todo o direito de acordar na segunda chateado.
Pode reclamar. Pode se irritar. Pode desabafar com os amigos, criticar a campanha, discordar do governo que vem aí. Isso tudo faz parte da democracia.
O que não faz parte é o que eu vi em muitos comentários depois da apuração.
O que eu vi depois da apuração
Volta pra tua terra. O Nordeste é a escória do Brasil. Povo que vive de migalha. Gente que não sabe votar.
Li isso e muito mais. Comentários escritos por alguns eleitores do candidato derrotado, direcionados a quem nasceu no Nordeste. Não é crítica a um governo. Não é crítica a um candidato. É ataque a um povo inteiro.
E não começou agora. Depois do primeiro turno, um estudo da Ativaweb DataLab, intitulado O Nordeste no Banco dos Réus, identificou cerca de 27 milhões de manifestações críticas ou hostis à região nas primeiras 72 horas. As mensagens associavam os nordestinos à pobreza, à dependência de programas sociais e à falta de conhecimento político. Na Bahia, o Ministério Público chegou a criar uma força-tarefa para apurar casos de xenofobia.
Se a gente olhar para trás, o padrão se repete a cada eleição. Aconteceu em 2014, em 2018 e em 2022. Em 2022, as denúncias de xenofobia na internet recebidas pela Safernet subiram 874% em relação ao ano anterior. Muda o candidato, muda o ano, e o alvo continua o mesmo.
A linha entre a chateação e o crime
Existe uma linha tênue entre ficar chateado com o resultado e cometer um crime. E muita gente atravessou essa linha.
Xenofobia contra nordestino não é opinião. É crime. A Lei 7.716, de 1989, pune quem pratica, induz ou incita discriminação ou preconceito por procedência nacional, e a origem regional entra nessa conta. A pena é de 1 a 3 anos de reclusão e multa. Se for publicado em rede social, sobe para 2 a 5 anos.
E não fica só no papel. Em Santa Catarina, a Justiça manteve a condenação de um homem que compartilhou mensagens contra nordestinos num grupo durante a eleição de 2022. Para o tribunal, o conteúdo passou do debate político e virou incitação à discriminação.
É exatamente essa a linha. Dizer que o governo vai ser ruim é opinião. Dizer que um povo inteiro é inferior por causa de onde nasceu é crime.
Eu sou nordestino. Com muito orgulho
Agora vou falar como Thiago, não como analista.
Eu sou nordestino. Sou sergipano, do menor estado do Brasil. Amo a minha terra. Amo a minha região. E quando alguém manda um nordestino voltar para a terra dele, está falando comigo também. Está falando com a minha família, com os meus amigos, com os meus clientes, com a senhora que vende tapioca na feira e com o professor que acorda cedo para dar aula no interior.
O Nordeste não é um bloco de votos. São mais de 50 milhões de pessoas, com histórias, escolhas e opiniões diferentes. Tem nordestino que votou em Lula. Tem nordestino que votou em Flávio. Tem nordestino que anulou. Reduzir um povo inteiro a um resultado eleitoral já é errado. Ofender esse povo por causa disso é inaceitável.
Esse tipo de coisa eu jamais vou aceitar. Nem calado, nem fingindo que é só um desabafo de quem perdeu.
Democracia é saber que um ganha e o outro perde
Toda eleição termina do mesmo jeito. Um candidato ganha, o outro perde. Todo mundo sabia disso antes de apertar o botão verde.
Dessa vez, a frustração de quem perdeu foi maior porque o resultado veio contra as pesquisas. Eu entendo. Mas o que decidiu essa eleição foi trabalho de mobilização. Mais gente foi votar. Gente que não tinha ido no primeiro turno. Quem não gostou do resultado não precisa curtir. Mas precisa respeitar.
Eu trabalho com política há dez anos. Já discordei de atitudes de Lula. Já discordei de atitudes de Flávio. Critico quando acho que devo criticar, com argumento e com números. Mas nunca, em nenhuma rede social e em nenhum texto meu, xinguei alguém por pensar diferente de mim. Nunca tratei ninguém como inferior por causa do voto.
Discordar é da democracia. Desumanizar quem discorda é o caminho mais curto para a violência. E a violência começa na palavra, muito antes de chegar ao gesto.
Para terminar
Fique triste. Fique irritado. Critique o governo que vem aí. Cobre, fiscalize, vote diferente daqui a quatro anos. Tudo isso é legítimo.
O que não dá é transformar frustração em ódio contra um povo. Não dá para aceitar. Não dá para normalizar. E não dá para ficar em silêncio.
Se você vir um ataque xenofóbico nas redes, denuncie. A Safernet recebe denúncias pelo site denuncie.org.br, em parceria com o Ministério Público Federal. O Disque 100 também recebe denúncias de violação de direitos humanos.
Eu sou nordestino. Sou sergipano. E me orgulho disso todos os dias, independente de quem ganhe a eleição.
Fontes
- Planalto: Lei 7.716/1989, texto atualizado
- WSCOM: estudo O Nordeste no Banco dos Réus, da Ativaweb DataLab
- Brasil 247: 27 milhões de manifestações hostis após o 1º turno
- Voz da Bahia: força-tarefa do MPBA contra xenofobia
- NSC Total: TJSC mantém condenação por xenofobia contra nordestinos
- TNH1: denúncias de xenofobia na Safernet em 2022
- PSB/RS: ataques a nordestinos em 2014, 2018 e 2022
- Brasil de Fato: canais de denúncia, Safernet e Disque 100





