Lula ganha sobrevida, mas a matemática ainda favorece Flávio

No dia 6, mostrei aqui que, se a transferência de votos seguisse a Quaest da véspera do 1º turno, Flávio Bolsonaro terminaria o 2º turno com cerca de 4,8 milhões de votos a mais que Lula. Saiu a primeira Quaest do 2º turno. Peguei os mesmos votos reais, apliquei a pesquisa nova e refiz a conta.
A diferença caiu para 3,5 milhões. Lula ganhou uma sobrevida. Mas o favoritismo continua com Flávio.
E tem um detalhe que quase ninguém está olhando. A sobrevida de Lula não vem de onde a manchete da matéria do G1 diz. O dado de que 43% de quem não votou no 1º turno agora declara voto em Lula impressiona, mas rende quase nada na conta. O fôlego vem da terceira via.
Vamos aos números.
O que mudou na Quaest
No placar geral, quase nada. Flávio tem 46% e Lula, 44%. É a mesma diferença de 2 pontos do 1º turno. A pesquisa ouviu 2.154 eleitores entre 10 e 13 de outubro, com margem de erro de 2 pontos.
O que mudou foi o comportamento de quem votou na terceira via. Na Quaest da véspera do 1º turno, esse eleitor pendia com força para Flávio. Agora ele está mais dividido.
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Eleitores de |
Flávio antes (3/10) |
Flávio agora (14/10) |
Lula antes (3/10) |
Lula agora (14/10) |
|---|---|---|---|---|
|
Augusto Cury |
34% |
30% |
23% |
34% |
|
Renan Santos |
60% |
40% |
11% |
14% |
|
Ronaldo Caiado |
43% |
42% |
19% |
23% |
Três movimentos chamam atenção:
- O eleitor de Cury virou. Antes, ele preferia Flávio por 11 pontos. Agora prefere Lula por 4.
- O eleitor de Renan esfriou. Flávio perdeu 20 pontos nesse grupo. Mas esse voto não foi para Lula: 43% dizem que vão votar branco, nulo ou não votar.
- O eleitor de Caiado continua com Flávio, mas Lula avançou 4 pontos.
Resumo: a terceira via deixou de ser um bloco fechado do Flávio.
A nova simulação
Com os percentuais novos aplicados aos votos reais, Flávio ganha 3,46 milhões e Lula ganha 2,18 milhões. Na conta anterior, era 4,16 milhões contra 1,61 milhão.
O ponto de partida é o mesmo: Flávio saiu do 1º turno com 56.104.422 votos e Lula, com 53.878.385. Para Zema, que não aparece nessa rodada, mantive a Quaest de 24 a 27/9.
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Eleitores de |
% Flávio |
% Lula |
Votos para Flávio |
Votos para Lula |
Não transferem |
|---|---|---|---|---|---|
|
Cury |
30% |
34% |
1.034.571 |
1.172.513 |
1.241.485 |
|
Renan Santos |
40% |
14% |
1.070.355 |
374.624 |
1.230.908 |
|
Caiado |
42% |
23% |
1.094.162 |
599.184 |
911.802 |
|
Zema |
81% |
9% |
264.453 |
29.384 |
32.648 |
|
Total |
|
|
3.463.541 |
2.175.705 |
3.416.843 |
Não transferem = branco, nulo, abstenção ou indeciso.
O placar simulado fica assim:
- Flávio: 59.567.963 votos (51,52%)
- Lula: 56.054.090 votos (48,48%)
- Diferença: 3.513.873 votos
Na simulação do dia 6, a diferença era de 4.776.869. Lula encurtou a distância em cerca de 1,26 milhão de votos. É a sobrevida.
A conta também confere com a própria pesquisa. Os 46% a 44% da Quaest equivalem a cerca de 51% a 49% dos votos válidos. Praticamente o mesmo placar da simulação.
Por que o "43%" da abstenção engana
A manchete da semana foi: 43% de quem não votou, anulou ou votou em branco no 1º turno agora declara voto em Lula. O dado é verdadeiro. Mas é só metade dele.
No mesmo grupo, 38% declaram voto em Flávio. Outros 17% dizem que vão se abster ou anular de novo, e 2% estão indecisos. A vantagem líquida de Lula ali é de apenas 5 pontos.
E esse grupo é enorme. São 39,4 milhões de pessoas.
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Grupo |
Eleitores no 1º turno |
|---|---|
|
Abstenção |
33.469.244 |
|
Nulos |
3.674.249 |
|
Brancos |
2.300.798 |
|
Total |
39.444.291 |
Agora a conta. Vou começar pelo cenário mais generoso possível para Lula.
Cenário impossível: todos os 39,4 milhões vão às urnas e votam exatamente como disseram à Quaest. Lula ganha 16,96 milhões de votos. Flávio ganha 14,99 milhões. O saldo de Lula é de 1,97 milhão.
Não chega. Faltam 3,51 milhões. Mesmo se o Brasil tivesse comparecimento total no 2º turno, coisa que nunca aconteceu, a abstenção sozinha não viraria a eleição.
Cenário realista: a cada 100 eleitores desse grupo que aparecem e escolhem alguém, cerca de 53 votam em Lula e 47 em Flávio. Lula sai com 6 votos líquidos.
Em 2022, a abstenção caiu pela primeira vez entre um turno e outro. Foram cerca de 560 mil eleitores a mais nas urnas. Se isso se repetir agora, nessa proporção, Lula ganha uns 35 mil votos.
Para fechar a diferença só com a abstenção, seria preciso levar cerca de 57 milhões de eleitores novos às urnas. É mais do que o grupo inteiro.
Ou seja: o eleitor que não votou pende para Lula, mas pende pouco. E é justamente o eleitor mais difícil de mobilizar. Entre um turno e outro, a abstenção costuma ficar parada ou subir. No 2º turno, muitos estados já elegeram governador, e há menos candidato local puxando gente para a urna.
A abstenção pode ajudar Lula na margem. Não é ela que vira o jogo.
O caminho mais curto ficou ainda mais curto
Se a abstenção não resolve, sobra para Lula virar quem votou em Flávio. E esse caminho encolheu.
Cada voto virado vale dois: um a menos para Flávio, um a mais para Lula. Por isso a conta cai pela metade.
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Simulação de 6/10 |
Simulação de hoje |
|---|---|---|
|
Diferença a tirar |
4,78 milhões |
3,51 milhões |
|
Eleitores de Flávio a virar |
2,4 milhões |
1,76 milhão |
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Fatia da base de Flávio |
cerca de 4% |
cerca de 3% |
Três em cada cem eleitores de Flávio. No papel, parece pouco. Na prática, é um eleitorado polarizado, que já escolheu um lado e está a dez dias da urna.
É aqui que mora a sobrevida de Lula. Não na abstenção.
A PEC da 6x1: a esperança que a pesquisa ainda não mediu
Na noite de quarta-feira (14), o Senado aprovou a PEC que acaba com a escala 6x1. Foram 75 votos a 1 nos dois turnos, e o texto segue para promulgação. A jornada cai para 40 horas semanais, com dois dias de descanso e sem corte de salário.
Esse é o ponto que pode dar a Lula algo que os números de hoje não mostram. E por um motivo simples: a Quaest foi a campo entre 10 e 13 de outubro. A aprovação veio depois. O efeito da 6x1 ainda não está em nenhuma das contas acima.
O fim da 6x1 virou uma das principais bandeiras da campanha de Lula. É um tema popular, que fala direto com o trabalhador do comércio e dos serviços. É exatamente o perfil do eleitor que Lula precisa convencer, e do eleitor que precisa tirar de casa.
Mas tem um porém. Flávio também votou a favor. Ele anunciou apoio à PEC na terça-feira (13), em meio à pressão sobre o tema, e o PL orientou o voto "sim". O único voto contrário foi do senador Hamilton Mourão.
Com isso, Flávio tirou de Lula a chance de transformar a votação num "nós contra eles" limpo. A disputa agora é de narrativa:
- O lado de Lula vai dizer que a 6x1 é conquista do governo e que a oposição tentou adiar a votação para depois da eleição. Em setembro, governistas acusaram Flávio e Rogério Marinho de obstruir a pauta.
- O lado de Flávio vai dizer que votou a favor e que a mudança é do Congresso, não do governo.
Quem ganhar essa briga pode mexer justamente no 1,76 milhão de votos que separa Lula do empate. É uma esperança real para o PT. Mas ainda é só uma esperança. A próxima rodada de pesquisas vai dizer se ela virou voto.
Os debates: onde a conta pode mudar de verdade
Lula e Flávio ainda não se enfrentaram nenhuma vez nesta eleição. Os dois faltaram a todos os debates do 1º turno. E o calendário do 2º turno já encolheu: o debate da Record, marcado para 11/10, foi cancelado por "incompatibilidade de agendas". A Band adiou o dela para 18/10.
Sobram dois encontros:
|
Data |
Emissora |
Distância da urna |
|---|---|---|
|
18/10 (domingo) |
Band |
7 dias |
|
23/10 (sexta) |
Globo |
2 dias |
Com uma diferença de 1,76 milhão de votos a virar, os debates deixam de ser vitrine e viram o principal campo de batalha. E cada um entra com uma missão diferente.
Lula precisa atacar. Quem está atrás não pode jogar pelo empate. Ele tem dois alvos claros:
- O eleitor de Renan Santos. É o grupo mais solto da terceira via: 43% dizem que vão votar branco, nulo ou não votar. São mais de 1,2 milhão de votos ainda sem dono.
- O eleitor de Cury. Ele já pende para Lula, mas por pouco. Consolidar esse grupo vale centenas de milhares de votos.
E Lula tem a 6x1 na mão como tema para puxar o debate para o bolso do trabalhador.
Flávio precisa não errar. Quem está na frente joga para segurar. A missão dele é manter o eleitor de Caiado, recuperar parte do eleitor de Renan que esfriou e não dar a Lula o momento de virada que o PT precisa.
O debate da Globo, a dois dias da eleição, é o mais perigoso para os dois. Um erro ali não tem tempo de conserto. Um acerto não tem tempo de ser rebatido.
Se tem um lugar onde 3% da base de Flávio pode mudar de lado, é ali.
Calma: tem muito ruído nesses números
Toda simulação tem limite. Esta tem alguns que precisam ser ditos com todas as letras.
1. As subamostras da terceira via são minúsculas. Cada eleitorado, de Cury, de Renan e de Caiado, representa cerca de 2% dos entrevistados. Numa pesquisa de 2.154 pessoas, isso dá algo entre 40 e 45 entrevistas por grupo. Com amostra desse tamanho, a margem de erro passa de 10 pontos para cima ou para baixo.
Na prática: a "virada" do eleitor de Cury para Lula (34% a 30%) pode ser só ruído. A queda de 20 pontos de Flávio entre os eleitores de Renan também pode ser exagerada. O movimento existe, mas o tamanho dele é incerto.
2. Na abstenção, é empate técnico. O grupo que não votou, anulou ou votou em branco é 22% da amostra, cerca de 470 entrevistas. A margem ali fica perto de 4,5 pontos. Os 43% de Lula contra 38% de Flávio estão dentro dela.
3. Dizer que vai votar não é votar. Quem faltou no 1º turno e diz à pesquisa que vai votar no 2º nem sempre aparece. A história mostra que a abstenção quase não cai. Se esse eleitor ficar em casa de novo, a pequena vantagem de Lula no grupo some junto.
4. Pesquisa já errou transferência antes. Em 2022, as pesquisas apontavam Lula como herdeiro dos votos de Tebet e Ciro. Na urna, de cerca de 10 milhões de votos da terceira via, 7 milhões foram para Bolsonaro e 3 milhões para Lula.
5. Duas suposições minhas. Mantive os números de Zema da Quaest de setembro, porque a rodada nova não traz esse recorte. E considerei que quem votou em Lula e Flávio no 1º turno repete o voto. As duas mexem pouco na conta, mas é bom saber que estão ali.
Nada disso inverte a conclusão. Mas mostra que a diferença de 3,5 milhões é uma estimativa, não um placar.
O retrato de hoje
Lula ganhou uma sobrevida. A diferença caiu de 4,8 milhões para 3,5 milhões de votos, e o caminho para a virada ficou mais curto: 1,76 milhão de eleitores, cerca de 3% da base de Flávio.
Mas o favoritismo continua com Flávio. Ele lidera o placar geral, leva a maior parte do eleitor de Caiado e de Renan e não perde nada relevante na abstenção.
A sobrevida de Lula veio da terceira via, não de quem ficou em casa. O "43%" da manchete soa como trunfo, mas rende quase nada na conta.
Daqui até o dia 25, Lula tem dois trunfos para tentar mudar o jogo: a aprovação da 6x1, que a pesquisa ainda não mediu, e os dois debates. Flávio tem a matemática a favor e precisa, acima de tudo, não errar.





