Lula consegue virada histórica e contradiz minhas projeções.

25/10/2026 às 22:47:44

Minha leitura dos números dava Flávio Bolsonaro como favorito no segundo turno. Deu Lula, com 51,78% dos votos válidos.

Poderia apagar a análise e seguir a vida. Muita gente faz isso. Mas quem trabalha com números precisa mostrar o erro com a mesma clareza que mostra o acerto. Senão, o número vira torcida.

Este texto não é sobre quem merecia ganhar. É sobre onde a minha conta quebrou e o que a virada ensina para quem trabalha com campanha, de vereador a presidente.

O que os números diziam

Flávio venceu o primeiro turno com 47,03% dos válidos, contra 45,16% de Lula. Uma diferença de 2,2 milhões de votos. Desde 1989, quem vencia o primeiro turno sempre levava a eleição.

Na véspera do segundo turno, os principais institutos apontavam na mesma direção. Datafolha e Quaest davam Flávio com 51% dos válidos. A AtlasIntel, 50,8%. Empate técnico em todos, mas com Flávio numericamente na frente.

A transferência de votos também parecia favorecer Flávio. Caiado e Zema declararam apoio a ele, e o Republicanos oficializou o apoio. As pesquisas mostravam a maioria dos eleitores da terceira via indo para o lado dele.

E tinha um detalhe que pesou muito na minha leitura. Na véspera do primeiro turno, as pesquisas davam Lula na frente. A urna deu Flávio. Ou seja, os institutos tinham subestimado o candidato do PL. Apostei que esse erro ia se repetir.

Repetiu. Só que ao contrário.

A conta que explica a virada

Lula terminou com 51,78% dos válidos e 64,2 milhões de votos. Flávio ficou com 48,22% e 59,8 milhões. Lula virou o primeiro presidente a perder o primeiro turno e vencer o segundo.

O dado que mais me chamou atenção está na comparação entre os dois turnos.

Candidato

1º turno

2º turno

Votos novos

Lula

53,9 milhões

64,2 milhões

+10,4 milhões

Flávio

56,1 milhões

59,8 milhões

+3,7 milhões

Em três semanas, Lula ganhou quase 7 milhões de votos a mais que o adversário. Esses votos vieram de três fontes:

  • 9,3 milhões de eleitores que votaram nos outros candidatos no primeiro turno.
  • 3 milhões de pessoas a mais que foram votar.
  • Cerca de 2 milhões a menos de brancos e nulos.

Agora a parte que derruba a minha leitura. Mesmo que todo eleitor novo e todo ex-nulo tivesse votado em Lula, ele ainda precisaria de algo entre 55% e 60% dos votos da terceira via. As pesquisas de transferência apontavam o contrário: 43% desse eleitorado preferia Flávio e só 30% preferia Lula.

Então aconteceu uma de duas coisas, provavelmente as duas. Ou a terceira via se dividiu muito mais do que as pesquisas captaram, ou houve eleitor de Flávio no primeiro turno que mudou de lado. Mauro Paulino, ex-diretor do Datafolha, já apontava esse segundo movimento entre os eleitores de 25 a 34 anos. Só os microdados por seção vão dizer o peso de cada fator.

Fator 1: a maior queda de abstenção da história

A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,21% no segundo. Foi a maior queda já registrada entre dois turnos. Em números, 3 milhões de pessoas a mais foram às urnas.

Isso não foi sorte. Logo depois do primeiro turno, a campanha de Lula apontou a abstenção como o maior desafio e mirou os 33 milhões de ausentes. Virou estratégia central, com mobilização no Nordeste, no Pará, no Amazonas e em Minas.

O perfil de quem votou também importa. A abstenção caiu entre jovens de 16 e 17 anos e entre eleitores analfabetos. Entre quem tem ensino superior, ela subiu.

E tem um detalhe de bastidor que todo profissional de campanha deveria anotar. No segundo turno, o voto valia como prova de vida automática do INSS, inclusive para quem tinha faltado no primeiro. Para o aposentado de baixa renda, isso é um motivo concreto para sair de casa. Regra eleitoral e calendário administrativo também são variáveis de campanha.

Fator 2: apoio não é transferência de voto

Caiado e Zema declararam apoio a Flávio no segundo turno. No papel, isso deveria levar boa parte dos eleitores deles junto.

Goiás, terra do Caiado, conta outra história. Foi o estado onde Lula mais cresceu em pontos percentuais: saiu de 31,06% para 40,34%. Flávio ainda venceu lá, mas o apoio do ex-governador não segurou o eleitorado.

Essa é talvez a lição mais valiosa da eleição para quem trabalha com marketing político. O eleitor da terceira via escolheu aquele candidato justamente porque não queria nenhum dos dois polos. Quando o candidato dele sai da disputa e manda votar em alguém, o eleitor não obedece automaticamente. Ele decide de novo.

Endosso de liderança ajuda. Mas não carrega eleitor sozinho.

Fator 3: o mapa da virada

Lula não virou só no reduto. Cresceu no Nordeste, mas também avançou forte onde Flávio era favorito.

Recorte

Lula no 1º turno

Lula no 2º turno

Nordeste

63,77%

69,36%

São Paulo

38,20%

46,15%

Minas Gerais

43,33%

50,39%

Minas foi o único estado que trocou de lado. No primeiro turno, Flávio tinha 48,24% contra 43,33% de Lula. No segundo, Lula venceu por 50,39% a 49,61%, uma diferença de menos de 100 mil votos. E a tradição se manteve: quem ganha Minas ganha o Brasil.

No mapa final, Lula venceu em 13 unidades da federação e Flávio em 14. Flávio levou todo o Sul, todo o Centro-Oeste, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Ou seja, a eleição não foi decidida por quem ganhou mais estados, mas por margem. Crescer 8 pontos em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, vale milhões de votos, mesmo perdendo o estado.

O que fica para quem faz campanha

Essa eleição deixa quatro lições que valem para qualquer disputa, de vereador a presidente.

  1. Comparecimento é voto. Em eleição apertada, trazer quem não votou pode valer mais do que convencer indeciso.
  2. Apoio formal não é transferência. O eleitor de terceira via decide de novo. Campanha que conta voto de aliado como garantido conta errado.
  3. Trajetória vale mais que fotografia. Uma pesquisa mostra onde o candidato está. A sequência de pesquisas mostra para onde ele vai.
  4. Regra e calendário entram na estratégia. A prova de vida do INSS virou motivo para sair de casa. Esse tipo de detalhe passa batido para quem só olha pesquisa.

Errar faz parte de quem analisa com números. Esconder o erro é que não faz. Na próxima eleição, vou continuar fazendo projeções. Só que agora com uma pergunta a mais na mesa: para onde a curva está indo?

Fontes

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