Quantos votos Lula precisa para virar?

A poucos dias do 2º turno, uma pergunta domina as conversas: Lula ainda consegue virar? Muita gente responde que sim e aponta para dois lugares: os votos da terceira via e os eleitores que não foram votar no 1º turno.
Fui testar essas duas hipóteses com os votos reais, a pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (21) e a série histórica de abstenção do TSE.
A resposta curta: a virada não é impossível, mas a missão é muito mais dura do que parece. E a abstenção, pela média histórica, não é o caminho.
Vamos à conta.
O ponto de partida
Todo cálculo de 2º turno começa pela urna do 1º.
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Votos no 1º turno |
|---|---|
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Flávio Bolsonaro |
56.104.422 |
|
Lula |
53.878.385 |
|
Vantagem de Flávio |
2.226.037 |
E os votos que ficaram sem candidato no 2º turno:
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Eleitores de |
Votos no 1º turno |
|---|---|
|
Augusto Cury |
3.448.569 |
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Renan Santos |
2.675.887 |
|
Ronaldo Caiado |
2.605.148 |
|
Romeu Zema |
326.485 |
|
Terceira via |
9.056.089 |
São esses 9 milhões que estão em disputa. Além deles, há os 39,4 milhões de eleitores que não votaram, anularam ou votaram em branco. Vamos analisar cada grupo separadamente.
Quanto da terceira via Lula precisa
Aqui está o erro mais comum nas análises que circulam por aí. Muita gente pensa assim: Flávio está 2,2 milhões na frente, então basta Lula pegar 2,2 milhões dos 9 milhões da terceira via.
Não funciona assim. Flávio também vai pegar votos desse grupo. E cada voto que Flávio conquista obriga Lula a conquistar mais um só para empatar.
Na prática, Lula precisa tirar da terceira via 2,2 milhões de votos a mais do que Flávio tirar. Fazendo a conta em dois cenários:
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Cenário |
Lula precisa de |
Flávio fica com |
Fatia que Lula precisa |
|---|---|---|---|
|
Todo eleitor da terceira via escolhe um lado |
5,64 milhões |
3,42 milhões |
62% |
|
21% não escolhem ninguém, como indica a Quaest |
4,69 milhões |
2,46 milhões |
66% de quem escolher |
Repare num detalhe do segundo cenário. Quanto menos gente da terceira via escolher um lado, maior a fatia que Lula precisa. Porque a vantagem de 2,2 milhões de Flávio continua lá, e sobra menos voto para tirar a diferença.
Agora a comparação com a realidade. Pela Quaest de 21/10, entre os eleitores da terceira via que escolhem um lado, Lula tem 41%. Ele precisa de 62% a 66%.
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Fatia de Lula na terceira via |
|---|---|
|
O que Lula tem hoje (Quaest) |
41% |
|
O que Lula precisa |
62% a 66% |
|
Distância |
21 a 25 pontos |
Há também o histórico. Em 2022, na conta bruta, de cerca de 10 milhões de votos da terceira via, Lula ficou com 3 milhões e Bolsonaro com 7 milhões. Lula teve cerca de 3 em cada 10. Agora precisaria de mais de 6 em cada 10.
E o perfil do eleitorado pesa. Três dos quatro candidatos derrotados, Caiado, Renan e Zema, vieram do campo da direita. Juntos, somam 5,6 milhões dos 9 milhões.
E se a pesquisa estiver errada?
É uma pergunta justa. Pesquisa de transferência de votos oscila muito. Em uma semana, a fatia de Lula entre os eleitores de Cury saltou de 34% para 48%. A de Flávio entre os de Caiado foi de 42% para 57%.
Isso acontece porque esses recortes são pequenos. A própria Quaest informa margens de erro de 17 pontos entre os eleitores de Cury, 24 entre os de Caiado e 20 entre os de Renan. Somados, os três grupos devem ter algo em torno de 75 entrevistas. A margem combinada fica perto de 11 pontos.
Então vamos fazer o teste mais generoso possível com Lula. Suponha que a pesquisa errou tudo contra ele, no limite máximo da margem.
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Fatia de Lula na terceira via |
|---|---|
|
Quaest |
41% |
|
Quaest com erro máximo a favor de Lula |
cerca de 52% |
|
O que Lula precisa |
66% |
|
Ainda falta |
14 pontos |
Ou seja: para Lula virar só pela terceira via, não basta a pesquisa estar errada. Ela teria que estar errada muito além da própria margem de erro.
É por isso que a virada não depende de um erro de pesquisa. Depende de um volume de eleitores que, até aqui, nenhum levantamento mostrou.
A abstenção: o que diz a média histórica
A outra aposta que circula é a abstenção. O raciocínio é: muita gente não votou no 1º turno, e se essas pessoas forem às urnas no domingo, Lula vira.
Para testar isso, não dá para usar achismo. Dá para usar a história. Esta é a abstenção nas últimas seis eleições presidenciais com 2º turno:
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Eleição |
Abstenção no 1º turno |
Abstenção no 2º turno |
Variação |
|---|---|---|---|
|
2002 |
17,70% |
20,46% |
+2,76 pontos |
|
2006 |
16,75% |
18,99% |
+2,24 pontos |
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2010 |
18,12% |
21,47% |
+3,35 pontos |
|
2014 |
19,39% |
21,09% |
+1,70 ponto |
|
2018 |
20,33% |
21,29% |
+0,96 ponto |
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2022 |
20,95% |
20,59% |
−0,36 ponto |
|
Média |
|
|
+1,78 ponto |
Dois fatos saltam da tabela:
- A abstenção subiu no 2º turno em cinco das últimas seis eleições.
- A única queda, em 2022, foi pequena: 0,36 ponto, mesmo numa das eleições mais polarizadas da história.
Hoje, cada ponto de abstenção equivale a cerca de 1,6 milhão de eleitores. Se a média histórica se repetir, cerca de 2,8 milhões de pessoas a menos vão votar no domingo. Não a mais.
Agora a projeção de votos. Na Quaest de 21/10, entre quem não votou, anulou ou votou em branco no 1º turno, Lula tem 40% e Flávio, 36%. Para cada 100 eleitores desse grupo que aparecem e escolhem um lado, Lula ganha cerca de 5 votos líquidos.
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Cenário |
Eleitores a mais nas urnas |
Saldo para Lula |
|---|---|---|
|
Média histórica (abstenção sobe 1,78 ponto) |
2,8 milhões a menos |
Nenhum ganho |
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Melhor caso da história (2022, cai 0,36 ponto) |
570 mil |
+30 mil votos |
|
Abstenção cai 2 pontos (nunca aconteceu) |
3,2 milhões |
+167 mil votos |
|
Abstenção cai 3 pontos (nunca aconteceu) |
4,8 milhões |
+250 mil votos |
|
|
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Até no cenário que nunca aconteceu, a abstenção entrega cerca de 250 mil votos. A vantagem de Flávio no 1º turno foi de 2,2 milhões.
E há um ponto que costuma passar batido. Se a abstenção subir, como sugere a média, não há garantia de que ela afete os dois candidatos por igual. O eleitor que fica em casa pode pesar contra qualquer um dos lados. A abstenção é uma incógnita, não um trunfo.
Conclusão desta parte: pela média histórica, a abstenção não é o caminho da virada.
Os três caminhos e o peso da sexta-feira
Juntando tudo, Lula tem três caminhos possíveis para a virada:
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Caminho |
O que Lula precisa |
Situação hoje |
|---|---|---|
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Terceira via |
62% a 66% desses eleitores |
Tem 41% |
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Abstenção |
Mais de 2 milhões de votos líquidos |
No melhor caso histórico, rende 30 mil |
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Virar eleitor de Flávio |
1,79 milhão de eleitores |
Cerca de 3% da base de Flávio |
O único caminho que fecha a conta é o terceiro: convencer quem já votou em Flávio a mudar de lado. Cada voto virado vale dois, porque sai de um e entra no outro. Por isso o número cai para 1,79 milhão, calculado sobre a projeção com os dados da Quaest de 21/10.
Parece pouco. Três em cada cem. Mas é o eleitor mais difícil de mover: já escolheu um lado no 1º turno, vive uma eleição polarizada e está a dias da urna.
E é aqui que entra o debate da Globo, na sexta-feira (23). Não por ser mágico, mas por ser o único evento que sobra com audiência grande o bastante para falar com esse eleitor de uma vez só. Depois dele, restam 48 horas.
O debate tem pesos diferentes para cada lado:
- Para Lula, é a principal oportunidade de mexer na conta. Um debate sem momentos marcantes mantém o placar como está.
- Para Flávio, é um risco a administrar. Quem está à frente na projeção precisa, sobretudo, evitar erros que mudem a percepção do eleitor na reta final.
Para ter uma noção do tamanho do desafio: o debate da Band, no domingo (18), foi o primeiro encontro entre os dois. A Quaest, que ficou em campo até dois dias depois dele, não mostrou movimento de Lula no placar geral.
A incerteza que existe
Uma análise honesta precisa mostrar onde ela pode falhar. Esta tem um ponto de incerteza real.
No placar geral, a Quaest mostra Flávio com 45% e Lula com 44%. É empate técnico. A projeção com votos reais mostra uma diferença maior, de cerca de 3 pontos nos válidos.
A diferença entre os dois retratos está numa premissa. A pesquisa entrevista quem faltou no 1º turno e conta essa pessoa como se ela fosse votar no domingo. Esse grupo representa cerca de 22% da amostra. A projeção, ao contrário, parte de quem de fato votou.
Se o eleitor que faltou no 1º turno aparecer em massa no domingo, a disputa fica mais perto do empate da pesquisa. Se ele repetir o comportamento de sempre, fica mais perto da projeção. A série histórica aponta para a segunda opção, mas a história não é garantia.
Há ainda duas premissas na conta. Para os eleitores de Zema, usei a Quaest de setembro, porque a rodada atual não traz esse recorte. E considerei que quem votou em Lula e em Flávio no 1º turno repete o voto. As duas mexem pouco no resultado.
O que os números permitem dizer
A virada de Lula não é impossível. Mas, pelos números disponíveis hoje, ela exige algo que não apareceu em nenhum momento desta campanha.
Pela terceira via, Lula precisaria de quase dois terços desse eleitorado. Hoje tem 41%, e nem o erro máximo da pesquisa fecha essa distância.
Pela abstenção, a média histórica aponta mais gente em casa, não menos. E mesmo nos cenários mais otimistas, o ganho fica longe do necessário.
O caminho que resta é convencer 1,79 milhão de eleitores de Flávio a mudar de lado. E a principal oportunidade para isso é o debate de sexta-feira.
Não se trata de torcer por um lado ou pelo outro. Trata-se de entender o tamanho da missão. E a missão de Lula, hoje, é das mais difíceis que um candidato pode ter a quatro dias de uma eleição.
No domingo, a urna mostra se a matemática estava certa.
Fontes
Pesquisa
- Quaest/Globo, 17 a 20/10/2026, 2.154 entrevistas, margem de erro de 2 pontos, registro BR-08535/2026. Placar geral: CNN Brasil e Poder360. Transferência de votos e margens dos recortes: g1 e Portal Leo Dias.
Abstenção histórica (dados do TSE)
- 1º turno de 2006 a 2022 e 2º turno de 2022: Gazeta do Povo.
- 2º turno de 2002 e 2006: Correio.
- 2º turno de 2010 e 2014: Instituto Millenium.
- 1º turno de 2002 e 2º turno de 2018: Jornal do Brasil.
Resultados do 1º turno de 2026 e transferência da terceira via em 2022
- Fontes listadas em A matemática do 2º turno.
Cálculos feitos pelo autor a partir dos dados acima.





